Por que estamos amando os cães?
- 4 de set. de 2024
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A questão emocional dos cães domésticos
Por Felipe Kaelli
A atual condição social que os cães atingiram na sociedade humana nos leva a pensar um pouco mais sobre as condições emocionais que estamos propondo para esses mesmos cães.
É fato que toda mudança social precisa de um tempo para que o nosso cérebro humano se adapte, e um dos maiores fenômenos de mudanças rápidas em nossa sociedade atualmente é a ascensão dos cães dentro do conceito familiar. O nosso cérebro humano, apesar de ser considerado o mais desenvolvido entre todas as espécies, precisa de tempo para fazer pequenos ajustes em sua evolução para lidar com novos tipos de estímulos. Posso compartilhar aqui exemplos simples como o açúcar, as tecnologias de tela e suas redes sociais como exemplos em que os seres humanos perderam drasticamente a capacidade de controle.
Nós, humanos, apesar de termos orgulho de ter controle de nossas decisões, somos “vítimas” desse pensamento de liberdade de decisões, pois não somos totalmente livres para decidir as coisas e somos facilmente manipulados pelo ambiente o tempo todo. Observando pessoas que passam tempo demais nas redes sociais, que não conseguem cumprir uma dieta com início, meio e fim para bater uma meta de saúde específica, tudo isso torna fácil compreender onde quero chegar. A maioria de nós sequer consegue beber a quantidade mínima de água necessária para a manutenção do nosso próprio corpo. A sociedade é composta por adultos que acreditam ser livres em suas decisões, mas não são.
Mas onde isso nos leva na questão dos cães?
Os cães são capazes de produzir sensações e emoções nos seres humanos que, raramente, outro ser vivo pode fazer. Isso porque existe uma exigência nas relações humanas que envolve conviver com outros pontos de vista. Quando nos relacionamos com outro ser humano, somos obrigados a aceitar que ele pode e provavelmente terá diversos pontos de vista diferentes dos nossos. Essa magia da relação entre humanos, um malabarismo social que se faz necessário para manter uma relação conjugal, uma relação de pais e filhos, uma relação no ambiente de trabalho e até mesmo uma amizade duradoura. Em uma relação entre duas pessoas, tudo o que fazemos é analisado pelo outro e ponderado por ele, e uma contrapartida nos será proposta do ponto de vista dele. Muitas vezes, poderemos ouvir um “não”. Muitas vezes, criaremos expectativas com o outro que não se cumprirão porque ele pode refletir sobre tudo à sua volta, pensar sobre passado, presente e futuro. Outro ser humano, em uma relação amorosa, familiar, de trabalho ou até mesmo de amizade, pode nos proporcionar sensações e emoções incríveis que necessitamos como seres humanos, mas isso tem um preço social a ser pago.
Entra aí então o nosso grande coringa emocional, “o cão”. Principalmente com a pandemia e o necessário afastamento social, o cão entrou de vez para dentro das nossas casas e das nossas vidas, e nesse momento acelerou um processo de transição social que já estava em curso, mas que provavelmente, sem a pandemia, demoraria alguns anos a mais para acontecer. E assim, seres humanos em massa passaram a experimentar o nosso “açúcar emocional”, o cãozinho, que é capaz de proporcionar a nós sensações e emoções compatíveis às mesmas geradas em relações entre humanos, só que sem a necessidade de contrapartida social. Com humanos, invariavelmente, precisamos estar em um jogo de ganhar e ceder, de aceitar críticas e aceitar que podemos ser julgados. Se formos grosseiros em um momento ruim do dia com alguém, essa mágoa gerada pode durar dias, semanas ou até mesmo nunca passar de fato, pelo simples fato de o ser humano, por causa da linguagem desenvolvida, poder refletir sobre isso. Se uma pessoa trair a outra em seu casamento, isso provavelmente nunca será perdoado. Se eu faltar com a minha parte no trabalho e sobrecarregar outra pessoa, isso será cobrado em algum momento. Se eu decidir sair e deixar meu filho ainda criança em casa sozinho, isso é legalmente um crime. E os exemplos seriam infinitos. O que de fato não acontece na relação com os cães. As pessoas podem ser grosseiras com um cão e, se lhe oferecerem uma guloseima ou um carinho, fazer as pazes sem nenhum resquício de mágoa. Se a pessoa fizer carinho em outro cão na rua, provavelmente seu cãozinho nunca saberá, porque ele sequer pode refletir sobre isso. As pessoas saem para trabalhar ou se divertir e deixam seus cães seguros em casa por horas seguidas, e isso é legal e socialmente aceitável. Muitos podem estar dizendo agora: “Óh, veja só quão maravilhosos os cães são!”. Mas entra a questão de todos os pontos emocionais relacionados aos cães. Por que o cão está entrando em nossas vidas com tanta força? Realmente é porque as pessoas “amam os cães”? Ou é porque as pessoas amam o que os cães são capazes de proporcionar a elas sem nenhuma cobrança em troca?
Nessas reflexões, continuarei evoluindo e ajudando você, que tem seu cãozinho, e você, profissional, a aumentar juntos nossa capacidade de trazer mais qualidade de vida aos nossos cães.
Temos que ter em mente que os cães possuem um sistema neurofisiológico que requer também muita atenção. Temos que começar a reflexão do porquê trazemos um cão para nossas vidas. É errado amar um cão por tudo o que ele pode nos proporcionar? Sinceramente, acredito que não, porque amamos tudo o que nos leva a ter sensações e emoções diferentes. Muitos amam pessoas, ídolos da música, e outros amam até times de futebol. Então, amar os cães é, sim, totalmente justificável. Mas não é importante começarmos a ter a reflexão de que alguns amam cães em um ciclo que cria uma prisão emocional para ambos? Onde o amor a um cão leva esse cão a ser “usado” como um recurso ou até mesmo um remédio emocional? Onde o amor a um cão não leva em conta a autodestruição da capacidade social de lidar com o contrário às nossas opiniões e vidas? Devemos amar os cães, os gatos e outros pets, mas não é justo amar eles conscientemente, amar sem deixar de sermos sinceros com as nossas intenções, com o que estamos buscando em um cão? É justo amar um cão somente porque ele não pode julgar nossas ações, nos dizer “não” ou simplesmente nos cobrar quando traímos sua confiança?
Continua...
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